A investigação da Polícia Federal sobre uma quadrilha especializada em fraudar concursos públicos atingiu outro delegado de segurança pública. Diogo Gonçalves Bem, da Polícia Civil de Pernambuco, pagou para que o esquema fraudasse o Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024 e beneficiasse sua esposa, Lariça Saraiva Amando Alencar, que foi aprovada em primeiro lugar para o cargo de auditora-fiscal no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), onde atua atualmente.
A informação consta em representação da PF à Justiça Federal na Paraíba, detalhada no programa Fantástico. O documento revela o funcionamento de um esquema milionário de fraudes em concursos públicos. A Secretaria de Defesa Social (SDS) de Pernambuco informou que abriu investigação preliminar para apurar a conduta do servidor.
Delação
A suposta participação de Diogo Bem e Lariça Saraiva foi revelada a partir da delação premiada de Thyago José de Andrade, apontado como chefe da organização criminosa, e de sua companheira, Lais Giselly Nunes de Araújo.
Segundo a PF, Thyago não detalhou como ocorreu o repasse de respostas à esposa do delegado. Já Lais afirmou em depoimento que “uma esposa de um delegado também fraudou o concurso do CNU, sendo aprovada em primeiro lugar. Que o nome da candidata era Lariça”.
Discrepância de notas
Além das citações dos delatores, a PF identificou uma discrepância de notas obtidas por Lariça na primeira e na segunda fase do concurso:
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Na primeira fase, ela teve a melhor nota nas provas objetiva e discursiva, o que indicaria suposto repasse de informações.
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Na segunda fase (curso de formação), obteve notas “relativamente baixas” nas duas provas realizadas.
Para a PF, essa diferença “indica certo despreparo e pode corroborar com a informação de fraude trazida por Thyago”. A corporação também aponta que o delegado pernambucano “pagou que sua esposa fosse beneficiada com a fraude do CNU” e, portanto, “financiou a fraude da esposa”.
Procurados
O g1 entrou em contato com o delegado Diogo Bem e com a auditora Lariça Alencar, mas ambos não responderam. O Ministério do Trabalho e Emprego também foi procurado, mas não se manifestou.
A Polícia Civil de Pernambuco afirmou que “não se pronuncia sobre investigações realizadas por outros órgãos”. A Corregedoria da SDS informou que iniciou investigação preliminar para verificar as informações e eventuais condutas irregulares do servidor.
Outros envolvidos
A investigação da PF também aponta Gustavo Xavier do Nascimento, delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, como integrante do esquema. Segundo a PF, ele é citado em delação como alguém que, ao descobrir a organização criminosa, não prendeu os envolvidos e passou a se beneficiar da estrutura de fraudes.
Também foram citados Eudson Oliveira de Matos, policial civil e suposto braço direito do delegado-geral; Ramon Izidoro Soares Alves, policial civil e vereador em Arapiraca; e Mércio Xavier Costa do Nascimento, irmão de Gustavo Xavier, que teria apresentado gabarito idêntico ao de outro investigado.
Nota da Cesgranrio
A Fundação Cesgranrio, responsável pelo CNU 2024, afirmou em nota que as investigações tratam da atuação de organizações criminosas externas e que a instituição, “assim como os próprios candidatos, são vítimas dessas tentativas de ataque, que são combatidas com rigor”.