Clínica investigada pela PF já recebeu R$ 12,35 milhões do Governo de Alagoas em 2026

21 de outubro de 2026 às 07:45
Política

Portal da Transparência registra R$ 12,35 milhões pagos pelo Governo de Alagoas à NOT entre janeiro e 20 de outubro de 2026. - Foto: Frame/Francês News

Por Redação com Francês News

A NOT – Núcleo de Ortopedia e Traumatologia Ltda., um dos alvos da Operação Estágio IV da Polícia Federal, já recebeu R$ 12.351.109,61 do Governo de Alagoas em 2026. Os dados constam no Portal da Transparência do Estado e foram atualizados nesta terça-feira (20).

O levantamento realizado pelo Francês News considera os pagamentos efetuados entre 1º de janeiro e 20 de outubro. No período, o Estado empenhou e liquidou R$ 13.133.665,61 em favor da empresa, restando aproximadamente R$ 782,5 mil ainda não pagos.

A maior parte dos recursos saiu do Fundo Estadual de Saúde. A unidade gestora empenhou e liquidou R$ 12.073.165,61, dos quais R$ 11.290.609,61 foram efetivamente pagos.

O Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores do Estado de Alagoas, o Ipaseal Saúde, aparece com R$ 1.060.500 empenhados, liquidados e pagos à empresa.

O recebimento de recursos públicos, por si só, não representa irregularidade. A relevância dos números está no crescimento dos repasses enquanto a empresa permanece vinculada a uma investigação que apura suspeitas de fraudes em procedimentos apresentados para ressarcimento pelo SUS.

Pagamentos cresceram R$ 7,1 milhões desde julho

Em 2 de julho, o Portal da Transparência indicava que a NOT havia recebido R$ 5.236.775 do Estado em 2026. Pouco mais de três meses depois, o total pago chegou a R$ 12.351.109,61.

A diferença é de R$ 7.114.334,61, o que representa crescimento de aproximadamente 136%. O montante liquidado também avançou de R$ 5.393.275 para R$ 13.133.665,61 no mesmo intervalo.

Em maio, quando o Francês News começou a acompanhar os novos repasses, a empresa havia recebido R$ 3.600.875. Parte desses pagamentos correspondia a despesas referentes aos meses de novembro e dezembro de 2025.

De clínica investigada a hospital de alta complexidade

Além do aumento dos pagamentos, a unidade ampliou sua presença na rede pública. Em julho, a Comissão Intergestores Bipartite aprovou o credenciamento do agora chamado Hospital NOT como unidade de assistência em alta complexidade em traumatologia e ortopedia.

A resolução autorizou atuação em traumatologia e ortopedia adulta, pediátrica e de urgência. O processo também solicitou ao Ministério da Saúde impacto financeiro anual de R$ 437.403,80 para custear a habilitação.

O ato foi assinado pelo secretário estadual da Saúde, Gustavo Pontes, ex-sócio da NOT e também investigado na Operação Estágio IV. A publicação apresentou ainda dois CNPJs diferentes no mesmo processo, divergência que não havia sido esclarecida pela Sesau até a reportagem anterior do Francês News.

PF questiona volume de procedimentos

A Operação Estágio IV investiga um suposto esquema de desvio de aproximadamente R$ 100 milhões da saúde pública de Alagoas. Entre os pontos analisados estão ressarcimentos relativos a consultas e procedimentos que, segundo a hipótese investigativa, poderiam não ter sido realizados.

No caso da NOT, a Polícia Federal chamou atenção para 42.608 procedimentos de fisioterapia informados em janeiro e fevereiro de 2024. Foram 19.856 registros em janeiro e 22.752 no mês seguinte.

Para fevereiro, os investigadores calcularam uma média de 1.137 procedimentos por dia útil ou cerca de 95 por hora. O relatório considerou o volume incompatível com a estrutura e o quadro de profissionais identificados durante a apuração.

A própria PF ressalta que os pagamentos recebidos pela empresa não configuram irregularidade por si mesmos. As suspeitas estão relacionadas à compatibilidade entre os procedimentos apresentados para ressarcimento e a capacidade operacional encontrada pelos investigadores.

Gustavo Pontes nega as acusações e sustenta, por meio de sua defesa, que a investigação possui nulidades a serem examinadas pelo Judiciário. O secretário chegou a ser afastado, mas retornou ao cargo após decisão do Superior Tribunal de Justiça.

Não há condenação definitiva relacionada aos fatos mencionados. O espaço permanece aberto para manifestação da NOT e da Secretaria de Estado da Saúde sobre o aumento dos pagamentos registrado em 2026.