Renan Filho entregou de bandeja um símbolo para campanha de JHC
Redação
Ao tentar ridicularizar o bíceps do adversário, a campanha de Renan Filho entregou a JHC o que nenhuma agência consegue comprar: um gesto de reconhecimento imediato
Um gesto de bíceps flexionado, repetido por apoiadores em fotos e vídeos, tornou-se a mais recente assinatura visual da candidatura de João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), ao Governo de Alagoas. A força é o novo símbolo, entre tantos símbolos digitais já viralizados por JHC (do povo).
Não por obra de um planejamento de campanha, mas pelo caminho inverso: o "muque" ganhou escala nacional depois que a campanha do senador Renan Filho (MDB) decidiu atacá-lo, levantando suspeitas de manipulação por inteligência artificial e ironizando o tamanho do braço.
A resposta do pré-candidato tucano, de que não precisava aumentar músculo por IA, encerrou o assunto do ponto de vista factual e o inaugurou do ponto de vista simbólico.
A gestão governista errou ao ignorar a força do engajamento, o poder de viralização, e a força das redes sociais: ao insistir na pauta do corpo do seu adversário, Renan Calheiros Filho chama a atenção para um símbolo pronto. JHC agarrou, como de costume, a oportunidade. Viralizou
O episódio coincide com o momento mais competitivo da disputa. Enquanto JHC subiu nas pesquisas, Filho estagnou. O Paraná Pesquisas divulgou nesta segunda-feira (31) levantamento que aponta JHC com 47,2% das intenções de voto contra 41,3% de Renan Filho no cenário estimulado, e 48,9% a 42,6% em segundo turno. Uma semana antes, a Quaest havia apresentado quadro oposto: Renan Filho com 42% e JHC com 40%.
O "muque" só funcionou porque encontrou uma estrutura pronta para absorvê-lo. Altamente reconhecido por sua mobilização digital e por pautar a imprensa e a opinião pública através de sua presença nas redes, JHC tem como uma de suas principais características a sua distância da comunicação política tradicional. Estudo recente apresentado na UFPE mostrou que, antes da desincompatibilização de seu cargo, JHC, somava 818 mil seguidores no Instagram, além de 127 mil no TikTok e 113 mil no Facebook.
Entre os temas mais explorados, vem lazer e gestão, com dez vídeos cada; educação vem em seguida, com oito. As entregas mais exploradas foram a Orla do Porto, no Jaraguá, e o Parque Linear do projeto Renasce Salgadinho, no Poço. Somadas, as publicações sobre esses dois temas ultrapassaram 3,1 milhões de visualizações no recorte. Mobilidade urbana e política habitacional aparecem com cinco vídeos cada — entre os assuntos, os ônibus exclusivos para mulheres e o programa de regularização fundiária.
Há um padrão de nomeação que atravessa a gestão e que raramente é analisado com seriedade: Busão da Mulher, Geladão, Gigantão, Gigantinhos, Banco da Mulher Empreendedora, Hospital da Cidade. Nenhum desses nomes passa por sigla, número de decreto ou homenagem a ex-governante. São palavras que já existiam na boca do eleitor antes de existirem no Diário Oficial.
Isso não é acidente estético. É a transposição, para a política pública, da mesma lógica que fez "Maceió é Massa", bordão adotado pela prefeitura, ultrapassar, segundo balanço da própria administração municipal divulgado em 2023, 50 milhões de visualizações no TikTok e mais de 100 mil menções no Instagram, em circulação majoritariamente espontânea. Um programa que se chama Geladão dispensa explicação; um programa que se chama Programa Municipal de Acesso à Água Potável Refrigerada exige assessoria de imprensa. A economia semântica é, no fim, economia política: reduz o custo de intermediação entre o gestor e o eleitor.
O muque é a versão mais enxuta desse mecanismo, porque prescinde até da palavra. É um gesto: custa um segundo, não exige explicação, não depende de plataforma, funciona em foto de família e em comício de interior. E foi entregue de bandeja por quem tentou ridicularizá-lo.