Renan Filho sucateou o saneamento e depois “vendeu a água” para empresas que acumulam inúmeras reclamações
Redação
Governador à época da venda da concessão dos serviços de saneamento à BRK alegou falta de capacidade de investimento e transferiu por décadas a exploração dos serviços de água e esgoto
Durante os oito anos em que Renan Filho governou Alagoas, entre 2015 e 2022, o saneamento básico do Estado deixou de receber investimentos suficientes para alcançar a universalização. Ao final da gestão, a justificativa utilizada pelo próprio governo para a concessão dos serviços era a incapacidade financeira da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) de realizar os investimentos necessários.
O problema é que essa incapacidade não surgiu de uma hora para outra. Levantamento aponta que, apesar de a Casal ter registrado superávit durante seis anos consecutivos, o governo Renan Filho deixou de investir R$ 5,6 bilhões no saneamento dos 102 municípios alagoanos. O valor consta de estudo contratado pelo próprio Estado ao BNDES seria o montante necessário para levar Alagoas à universalização do serviço.
No período de recuperação da companhia, o investimento foi de apenas R$ 50 milhões. Mantido aquele ritmo, seriam necessários mais de cem anos para universalizar o saneamento estadual, segundo declaração do então presidente da Casal, Clécio Falcão.
A consequência foi a abertura do caminho para a iniciativa privada. Em dezembro de 2020, o governo Renan Filho assinou com a BRK Ambiental a concessão dos serviços de água e esgoto de 13 municípios da Região Metropolitana de Maceió. O contrato previa investimentos de R$ 2,6 bilhões, dos quais R$ 2 bilhões deveriam ser aplicados nos seis primeiros anos. A empresa venceu o leilão realizado pelo BNDES com uma oferta de R$ 2,009 bilhões.
A concessão não ficou restrita à capital. Posteriormente, os blocos regionais de saneamento levaram a iniciativa privada também para o interior. O negócio alcançou mais de 80% do saneamento de Alagoas, com contratos de 35 anos. O modelo transferiu às empresas privadas a operação de sistemas de distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto em dezenas de municípios.
A promessa era de melhoria. A realidade virou reclamação
Quando o contrato foi anunciado, o discurso oficial era de transformação. Na Região Metropolitana, a BRK deveria universalizar o abastecimento de água até 2026 e elevar para 90% o acesso à rede de esgoto até o 16º ano da concessão. A empresa também deveria reduzir as perdas de água de 59% para 20%.
O histórico posterior, entretanto, mostra que os problemas não desapareceram com a transferência para a iniciativa privada.
Em 2025, o Ministério Público de Alagoas criou um grupo de trabalho específico para fiscalizar os serviços da BRK nos 13 municípios da Região Metropolitana de Maceió. A iniciativa foi tomada depois de representantes das câmaras municipais relatarem problemas no abastecimento e no tratamento de esgoto. Segundo o presidente da Câmara de Maceió à época, havia uma insatisfação generalizada com a qualidade do serviço.
O episódio é especialmente revelador porque mostra que, quatro anos depois da concessão, a fiscalização institucional ainda precisava ser reforçada para cobrar o cumprimento do contrato.
As reclamações dos consumidores também se acumulam. No Reclame Aqui, a BRK aparecia, no primeiro semestre de 2026, com nota média de 2,99 entre os consumidores que avaliaram a empresa, apenas 32,1% afirmando que voltariam a fazer negócio e índice de solução de 41,3%.
Em Maceió, há relatos recentes de falta de água, vazamentos sem solução, problemas de faturamento e cobranças contestadas.
Em uma reclamação registrada em abril de 2026, uma consumidora relatou estar sem água desde janeiro enquanto um vazamento permanecia na rua, apesar de chamados sucessivos. Segundo ela, o atendimento teria encerrado a solicitação sem resolver o problema.
Outro consumidor relatou, em fevereiro, períodos frequentes sem abastecimento acompanhados de contas que chegaram a R$ 650 e R$ 850.
Também existem reclamações envolvendo a cobrança de esgoto. Em janeiro de 2026, um consumidor afirmou que recebeu uma cobrança de R$ 511,60 e questionou a existência da rede de esgotamento no local onde mora.
Há ainda relatos de consumidores que afirmam ter recebido cobranças mesmo diante de problemas no abastecimento ou de dificuldades para conseguir atendimento e revisão de faturas. Uma reclamação registrada em fevereiro descreveu três contatos telefônicos e três horas de espera presencial para tentar solucionar uma cobrança relacionada a religação.