Torcedores do CSA são condenados a mais de 33 anos por tentativa de homicídio contra rival do CRB
Por Redação
Dois integrantes da torcida organizada Mancha Azul, ligada ao CSA, foram condenados nesta sexta-feira (20) pela tentativa de homicídio de dois torcedores do CRB. O crime aconteceu em agosto de 2023, no bairro do Barro Duro, em Maceió, e chocou Alagoas pela violência extrema.
Após um julgamento que se estendeu por mais de 19 horas, o juiz Geraldo Amorim, da 9ª Vara Criminal, sentenciou Thiago Alves Lyra Santos, conhecido como “Bocão”, a 33 anos e cinco meses de prisão. Já Jozedaque Jecteel Português da Silva, o “Tchê”, foi condenado a 18 anos de reclusão. Ambos já estavam presos no Presídio do Agreste e continuarão cumprindo pena em regime fechado.
O crime
O ataque ocorreu no dia 2 de agosto de 2023. Segundo a denúncia do Ministério Público de Alagoas (MPAL), dois veículos estacionaram próximo a um grupo de torcedores do CRB que estavam na frente de uma casa. Os ocupantes, todos integrantes da Mancha Azul, desceram armados com porretes revestidos de pregos e tacos de beisebol e começaram a agredir as vítimas.
Duas pessoas conseguiram fugir, mas Symei Araújo e Michael Douglas foram alcançados e espancados. Symei sofreu traumatismo cranioencefálico grave e ficou em coma por quatro meses no Hospital Geral do Estado (HGE). Mesmo após receber alta, passou mais dois meses sem conseguir andar, falar ou sequer se alimentar sozinho. Até hoje, enfrenta dificuldades de locomoção, fala e precisa de acompanhamento contínuo com fisioterapeutas e fonoaudiólogos.
Provas e contradições
Durante o julgamento, a promotora de Justiça Adilza de Freitas apresentou um conjunto de provas que desmontaram as versões apresentadas pelos réus. Thiago Lyra, que em depoimento anterior afirmou que os porretes usados no crime estavam dentro de um carro pertencente a Jozedaque Silva, mudou a versão no júri e disse que “as pessoas costumam deixar os carros lá na sede e a gente não sabe de quem é”. Já Jozedaque declarou que não tinha carro, apenas uma moto, porque trabalhava como motorista de aplicativo — mas admitiu que não possuía Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A defesa de Thiago chegou a apresentar uma tia idosa como testemunha de álibi, alegando que ele estava se recuperando de um tiro no braço no dia do crime. No entanto, um laudo médico feito dois dias depois da agressão mostrou que ele não apresentava nenhuma lesão.
Vídeos e "troféus"
A promotora usou um telão para exibir vídeos dos acusados momentos antes do ataque. Nas imagens, eles apareciam entoando gritos de guerra e empunhando porretes. Também foram mostradas, com autorização da vítima, fotos de Symei caído, despido e com o crânio fraturado.
“Eles não quiseram somente matar o Symei, quiseram desmoralizar e ferir sua dignidade”, afirmou Adilza de Freitas. Segundo a promotora, os agressores filmaram a cena, roubaram pertences das vítimas e compartilharam as imagens como “troféu” em grupos da torcida organizada.
Clima tenso
O salão do júri foi marcado por provocações entre integrantes das duas torcidas organizadas. Em dado momento, o juiz Geraldo Amorim determinou a retirada de todos os presentes que usavam camisas de clubes ou símbolos das torcidas. Alguns tiveram que trocar de roupa para permanecer no local.
A promotora destacou a dificuldade de se obter testemunhas em casos envolvendo torcidas organizadas, tamanho o medo de represálias. “Várias pessoas viram, mas eles são brutais, e elas têm medo, pois sempre agem em bando e frequentam os mesmos espaços”, afirmou.
Vítima com sequelas
Symei Araújo, uma das vítimas, ainda não consegue lembrar dos agressores devido às sequelas neurológicas. “Ele é um jovem que teve a vida destruída, porque é dependente para muitas coisas, que se olha no espelho e não se reconhece”, relatou a promotora.
Michael Douglas também foi agredido, mas conseguiu se recuperar sem sequelas tão graves. Os outros dois torcedores que estavam no local conseguiram fugir e não foram atingidos.
Justiça feita
Ao encerrar o julgamento, a promotora classificou a condenação como uma resposta da sociedade à barbárie. “Mostramos ao conselho de sentença todos os detalhes, e ele entendeu a responsabilidade que estava em suas mãos: a de mostrar que a sociedade não pode fechar os olhos para barbáries. Em defesa da vida, a justiça foi feita.”