Alerta militar: EUA preparam bombardeios contra PCC e CV em solo brasileiro

09 de março de 2026 às 08:27
Mundo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e o presidente do Brasil, Lula. - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Por Redação 

O governo dos Estados Unidos concluiu a fase técnica para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida, que agora aguarda apenas chancela política, deve ser anunciada nos próximos dias e transforma as operações das facções em alvos legítimos de ataques militares americanos, inclusive em território brasileiro .

A documentação sobre os dois grupos foi finalizada no Departamento de Estado, passou por diferentes agências do governo e segue o mesmo modelo adotado pela gestão Trump em relação a outras organizações criminosas da América Latina, como o Cartel de Jalisco, no México, e o Tren de Aragua, da Venezuela . Após a análise final do secretário de Estado Marco Rubio, o material será enviado ao Congresso e posteriormente publicado no Registro Federal, o que pode levar cerca de duas semanas .

Segundo diplomatas ouvidos pela reportagem, a decisão dificilmente será revertida. O Palácio do Planalto foi alertado sobre o avanço da proposta e busca reabrir canais de diálogo com Washington. O chanceler Mauro Vieira tenta conversar com Rubio desde o último sábado, mas não há confirmação de que o contato tenha ocorrido .

Alvo militar legítimo

Um dos principais temores das autoridades brasileiras é que, com a designação, as bases e operações do PCC e do CV se transformem em alvos legítimos de ataques militares dos EUA. Semanas depois de designar grupos colombianos como terroristas, o governo Trump intensificou os ataques contra barcos na costa do país sul-americano .

Nas últimas semanas, a administração americana lançou ofensivas contra o narcotráfico no México e no Equador. No último fim de semana, Trump anunciou a criação de uma "aliança militar" contra grupos criminosos ao lado de uma dezena de países latino-americanos. Em seu discurso, ele afirmou que fará com o narcotráfico o mesmo que os EUA fizeram com o Estado Islâmico: bombardear em territórios estrangeiros. Em tom de brincadeira, avisou aos demais presidentes da região: "vocês querem mísseis? Posso também bombardear. Esses mísseis são precisos" .

A designação como organização terrorista estrangeira implica uma série de sanções automáticas: congelamento de ativos de integrantes sob jurisdição americana, bloqueio de acesso ao sistema financeiro dos EUA e proibição de qualquer forma de "apoio material" por cidadãos ou empresas do país, incluindo fornecimento de armas .

Pressão bolsonarista e dossiê

A classificação como terroristas era uma reivindicação de setores bolsonaristas que buscavam o envolvimento direto do governo Trump na agenda doméstica brasileira. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a sugerir a necessidade de uma ação americana em território nacional. Ele recebeu uma delegação americana ainda em 2025 para debater o tema e deu sinal favorável à medida. Um suposto dossiê foi preparado pelo governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, e enviado à Casa Branca com detalhes sobre os grupos criminosos .

Dentro do governo, existe a suspeita de que informações possam ter sido passadas pelo ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, que hoje vive nos EUA como foragido da Justiça brasileira. Condenado a mais de 16 anos de prisão por participação na trama golpista, Ramagem deixou o Brasil em setembro de 2025, violando medidas cautelares .

Ramagem foi o relator original do Projeto de Lei 1.283/2025, que propõe alterar a Lei Antiterrorismo brasileira para enquadrar facções criminosas como organizações terroristas. A proposta, que cita nominalmente o governo Trump como modelo, foi aprovada na Comissão de Segurança Pública da Câmara com apoio da bancada bolsonarista .

Resistência do Planalto

O governo federal descartou publicamente a possibilidade de classificar PCC e CV como terroristas. O secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, afirmou que as facções não se enquadram no conceito jurídico de terrorismo porque não atuam em defesa de uma causa ou ideologia, mas sim em busca de lucro por meio de ilícitos . O presidente Lula já havia afirmado que terrorismo e crime organizado são problemas distintos e "não devem servir de desculpa para intervenções à margem do direito internacional" .

Ao ICL Notícias, a chefia da Polícia Federal confirmou que sequer aceitou receber uma delegação do Departamento de Estado norte-americano, em 2025, que queria convencer o Brasil a também classificar os grupos como terroristas. A delegação acabou sendo recebida pelo Ministério da Justiça e pelo Itamaraty e, em ambos, ouviu que o Brasil não seguiria na mesma linha .

Precedentes na região

Se confirmada, a inclusão do PCC e do CV colocará as facções brasileiras em uma lista que já reúne organizações criminosas de outros países da América Latina: os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, o colombiano Clã do Golfo, os haitianos G9 e Família, e os equatorianos Los Choneros .

Em fevereiro de 2025, o Departamento de Estado dos EUA designou o cartel de Sinaloa, o Tren de Aragua e outros grupos latino-americanos como terroristas globais. Depois disso, especialistas alertaram para o aumento do risco de processos criminais, ações civis e punições contra empresas ou pessoas acusadas de manter relações financeiras com áreas controladas por essas organizações .