Deserto assistencial: Neuropsicólogo I denuncia abandono de famílias de autistas no interior de Alagoas
Redação
Em entrevista ao portal CadaMinuto, o neuropsicólogo Luan Gama trouxe à tona a realidade invisibilizada do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no interior de Alagoas, classificando a situação fora da capital como um verdadeiro "deserto assistencial". Enquanto Maceió lida com gargalos burocráticos e extensas filas de espera, as famílias das regiões do Agreste, Sertão e Zona da Mata enfrentam um cenário de completo isolamento e abandono do poder público. Estimativas apontam que o estado possui mais de 15 mil crianças e adolescentes no espectro, porém, a falta de um censo estadual eficiente impede o direcionamento de políticas públicas adequadas.
O especialista detalhou a rotina exaustiva de mães e pais de baixa renda que precisam recorrer ao Tratamento Fora do Domicílio (TFD), enfrentando viagens na madrugada em busca de consultas raras com neuropediatras e psiquiatras infantis em Maceió ou Arapiraca. O Dr. Luan Gama alertou que o TEA exige terapias multiprofissionais de alta intensidade — como Psicologia (abordagem ABA), Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional —, tornando a logística do deslocamento semanal inviável para essas famílias. Como consequência, centenas de crianças chegam à idade adulta sem fala, sem alfabetização e com alto grau de dependência por falta de suporte na infância.
Além do deficit na saúde, o neuropsicólogo denunciou a existência de uma "inclusão de fachada" nas redes municipais e estaduais de ensino. Segundo ele, as escolas cumprem a obrigação legal da matrícula, mas pecam na permanência do aluno devido à ausência de mediadores escolares qualificados, muitas vezes substituídos por estagiários sem preparo ou funcionários desandados de outras funções. Ele reforçou a necessidade de os pais exigirem o Plano de Ensino Individualizado (PEI) com base na Lei Berenice Piana, criticando ainda as operadoras de saúde e o SUS que fornecem apenas duas horas semanais de terapia — uma carga considerada ineficiente perante o padrão-ouro de 10 a 40 horas semanais, o que acaba empurrando as famílias exaustas para o adoecimento mental e para a judicialização.