Silêncio que mata: em AL, 85% das violações contra mulheres não viram denúncia

17 de março de 2026 às 09:13
Polícia

Subnotificação de casos de violência contra a mulher acende alerta - Foto: Reprodução
 
Por Redação
 

 Dados do Ministério dos Direitos Humanos revelam um abismo entre a violência sofrida e a busca por justiça em Alagoas. De janeiro até 16 de março de 2026, o estado registrou 756 violações contra a mulher nos canais oficiais. Desse total, apenas 110 resultaram em denúncias formalizadas – o equivalente a 14,5% dos casos .

Em Maceió, o cenário é ainda mais crítico. Foram 374 violações e apenas 52 registros efetivos. Os números de 2025 também impressionam: 4.646 violações para 604 denúncias no estado; na capital, 1.689 casos para 224 protocolos .

O que são violações

O termo "violações" abrange qualquer fato que atente contra os direitos humanos de uma vítima, incluindo maus-tratos, exploração sexual, tráfico de pessoas e violência doméstica. As "denúncias" são os registros efetivamente formalizados nos canais oficiais. A diferença entre os dois números indica quantas vítimas ou testemunhas conseguem ou decidem formalizar a agressão .

Para a coordenadora do curso de Direito da Faculdade Anhanguera, Mylla Gabriely Araujo Bispo, a divulgação desses dados é essencial para a conscientização. "Trazer essa temática para o debate social informa sobre onde e quando denunciar, e alerta para a importância, pois os dados mostram que nem sempre a vítima registra, de fato, esses crimes. Além disso, é uma forma de as mulheres se sentirem acolhidas e apoiadas umas pelas outras", avalia .

Cenário nacional

O Brasil registrou 6.904 vítimas de feminicídio (consumados e tentados) em 2025, segundo o Relatório Anual de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O número representa um aumento de 34% em relação a 2024. Foram 2.149 assassinatos e 4.755 tentativas – uma média de quase seis mulheres mortas por dia. A pesquisa aponta ainda que 75% dos crimes ocorrem no âmbito íntimo, e 59% das vítimas foram mortas dentro de casa ou na residência do casal .

Como denunciar e pedir ajuda

A especialista Mylla Gabriely dá dicas práticas para mulheres em situação de violência:

  • Ligue 190: Em caso de perigo iminente, a ligação para a Polícia Militar pode ser feita como se fosse um pedido de delivery, uma forma discreta de pedir socorro.

  • Ligue 180: A Central de Atendimento à Mulher funciona 24 horas por dia. A ligação é gratuita e o serviço orienta sobre direitos, legislação e encaminha denúncias aos órgãos competentes. Também atende pelo WhatsApp (61) 99610-0180.

  • Disque 100: Canal de denúncias de violações de direitos humanos, também gratuito e anônimo.

  • Delegacias Especializadas (DEAMs): Realizam ações de prevenção, apuração e enquadramento legal. É possível solicitar medidas protetivas de urgência. Em Alagoas, há três unidades .

A rota crítica da denúncia, especialmente em cidades pequenas, é marcada por barreiras como exposição social, falta de delegacias especializadas e atendimento desqualificado. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 70% dos municípios com menos de 100 mil habitantes não contam com nenhum serviço da rede especializada de atendimento à mulher . No entanto, a lei existe, e os canais de denúncia estão disponíveis.